10. CULTURA 4.9.13

1. CINEMA - "J ME SENTI MENOSPREZADO"
2. LIVROS - ANOTAES INDITAS DE ERICO VERISSIMO
3. EM CARTAZ  CINEMA - O LTIMO PAPEL DE WALMOR CHAGAS
4. EM CARTAZ  EXPOSIO - A ARTE DO IMPROVISO
5. EM CARTAZ  MSICA - OS ANIVERSRIOS DE MILTON NASCIMENTO
6. EM CARTAZ  LIVRO - LITERATURA DESERDADA
7. EM CARTAZ  POESIA - INTIMIDADE EM UMA PGINA
8. EM CARTAZ  AGENDA - BALLET STAGIUM/O SENHOR DAS CHAVES/CAMERATA FUKUDA
9. ARTES VISUAIS - CONCERTOS PARA CORPO E FOTOGRAFIA
10. ARTES VISUAIS - BATE PAPO - ABASEH MIRVALI E A PAISAGEM MONUMENTAL DO RIO

1. CINEMA - "J ME SENTI MENOSPREZADO"
Mesmo elogiado no papel de Steve Jobs, o ator Ashton Kutcher diz que, se depender de hollywood e da tev, ir continuar com os papis de trapalhes sedutores
Elaine Guerini, de Nova York

Ashton Kutcher, 35 anos, ganhou projeo com o casamento de seis anos com a atriz Demi Moore e com os papis de bonites sem crebro no cinema e na tev. Em 2011, o ator foi escolhido para substituir Charlie Sheen na srie Two and a Half Men, pela qual embolsa cerca de US$ 800 mil por episdio, para viver o bilionrio infantil que comprou a casa do falecido Charlie. Ser subestimado como ator no  to ruim, desde que voc aprenda a usar isso a seu favor, diz. Talvez Hollywood mude a percepo sobre Kutcher, passando a v-lo como um ator mais srio depois de Jobs, filme de baixo oramento (US$ 12 milhes), que estreia na sexta-feira 6. Na entrevista  ISTO, o nico assunto proibido foi a vida pessoal. Deixo que as pessoas preencham as lacunas como quiserem, resumiu Kutcher.

PROFISSO - Ele comeou a faculdade de bioqumica, mas no terminou. "No me limito  carreira de ator", diz 

ISTO  A exemplo de Jobs, voc tambm foi obcecado por tecnologia e eletrnica na infncia e na adolescncia?
 Ashton Kutcher  Sim. Quando era criana, gostava de matemtica e cincias. Era muito curioso e queria saber como tudo funcionava. A curiosidade sempre foi a minha religio. Frequentei a faculdade de engenharia bioqumica, mas no cheguei a terminar. A vontade de descobrir coisas me acompanha at hoje. Talvez isso explique o fato de eu no ter me limitado  carreira de ator. Eu provavelmente passo pelo menos 30 horas por semana trabalhando em outras coisas, como produtor ou empresrio.

ISTO  Qual foi a sua primeira aventura como empresrio?
 Kutcher  Em 2000, abri uma produtora de contedo para televiso e cinema, a Katalyst, aproveitando que eu tinha um quarto extra em casa. Convidei um amigo, com a mesma ambio que eu para ser scio. Avisei que trabalharamos de graa at comear a entrar dinheiro. S muito mais tarde contratamos um funcionrio e a produtora comeou a crescer (a Katalyst chegou a ser considerada por revistas especializadas uma das empresas mais inovadoras na sua rea). Foi minha primeira experincia gerando um negcio.

ISTO  O que procura quando investe em empresas de tecnologia como Spotify, Airbnb, Foursquare?
 Kutcher  Como investidor, procuro me associar a empresas apaixonadas pelos problemas que resolvem e por empreendedores jovens e inovadores, mesmo que eles ainda estejam trabalhando em garagem, como Jobs comeou. Para vencer,  preciso ter determinao, foco e viso, alm de coragem para correr riscos. Hoje, ter diploma universitrio no quer dizer nada. A maioria dos jovens que sai da faculdade no encontra lugar no mercado de trabalho.

ISTO  Talvez por isso a trajetria de Jobs, que nunca se formou na universidade, seja to inspiradora?
 Kutcher  Sim. Muitas pessoas passam a vida inteira esperando que o mundo lhes d algo. Mas no  assim. O filme mostra como dois caras (Jobs e o amigo Steve Wozniak) tiveram uma ideia que levou  empresa mais poderosa do mundo. Muitos usam todo tipo de desculpas para no construir ou criar algo. Acham que precisam de capital, disso ou daquilo, quando s  preciso querer fazer.

Adoro o Rio e So Paulo. O brasileiro tem esprito livre e vontade de viver, o que d ao Pas uma aura de energia e novidade

ISTO  Como Jobs, voc tambm parece ter o dom de palestrante motivacional.
 Kutcher  (Risos) Eu participo de muitas conferncias de tecnologia, falando sobre produtos, design e internet. Tambm costumo falar em pblico sobre causas que defendo, como eliminar a explorao sexual de crianas e a pornografia infantil. Quando sei o que quero dizer e tenho conhecimento do assunto, consigo me apresentar decentemente.

ISTO  Acredita que o filme mudar a imagem que a indstria do entretenimento tem de voc, escalando-o quase sempre para os papis de piadistas e imaturos?
 Kutcher  No sei e no me importo. Se depender de Hollywood e da tev, devo continuar com os mesmos papis. A indstria do entretenimento  muito previsvel, por seguir um modelo de negcios que s pensa em repetir sucesso. Se um dia pararem de me chamar para atuar, certamente farei outra coisa da vida. Eu posso perfeitamente criar as minhas oportunidades.

ISTO  J se sentiu menosprezado como ator, por conta dos papis de trapalhes sedutores que faz?
 Kutcher  J. No sou surdo (risos). J ouvi muita crtica, de quem me achava incapaz de fazer isso ou aquilo. Alguns no acreditaram que eu poderia interpretar Jobs nas telas. Isso di, claro. Mas s se voc levar para o lado pessoal. Sempre tentei usar a crtica para me motivar. Trabalho o dobro quando algum me diz que eu no vou conseguir.

ISTO  Qual foi o melhor conselho que j recebeu?
 Kutcher  At hoje no sei se  aplicvel a tudo na vida, mas meu pai sempre dizia: Faa certo da primeira vez ou no faa. E isso est enraizado em mim como tica de trabalho.

ISTO  Voc j reservou um assento (de US$ 200 mil) na nave Space Ship Two para viajar ao espao no ano que vem. O que espera ver?
 Kutcher  Ainda no sei o que esperar. S posso dizer que procuro usar o meu dinheiro para comprar experincias. Isso  a coisa mais valiosa do mundo, pois experincia ns guardamos para sempre. Topei participar pensando mais na nova perspectiva do mundo que eu terei, aps realizar a viagem.

Alguns no acreditaram que eu poderia interpretar
 Steve Jobs nas telas. Isso di, claro

ISTO  Voc frequenta centros de cabala h mais de dez anos. O que busca na filosofia?
 Kutcher  Gosto de me conectar com a essncia das coisas. Adoro natureza, acampar e pescar. Tambm gosto de estar em relacionamentos srios (atualmente, ele namora a atriz Mila Kunis). Por mais que eu seja louco por tecnologia, todo ano eu tiro uma semana para me desconectar de tudo. Fico sem celular, computador ou iPod, tentando viver apenas o momento. A cabala me ajuda nesse sentido, a buscar respostas. At porque, quanto mais descubro coisas, mais percebo que no sei nada.

ISTO  No ano passado voc postou uma foto no Twitter brincando de surfar numa rua alagada em So Paulo. Gosta da cidade?
 Kutcher  Adoro So Paulo. O povo  extraordinrio  isso tambm se aplica s outras cidades brasileiras que conheo, como Rio de Janeiro e Angra dos Reis. Tenho vrios amigos por l, pessoas com quem me divirto muito. O brasileiro tem um esprito livre e uma grande vontade de viver, o que d ao Pas uma aura de energia e novidade.


2. LIVROS - ANOTAES INDITAS DE ERICO VERISSIMO
Cartas, manuscritos, desenhos e originais do autor de "O Tempo e o Vento" sero mostrados na ntegra, em memorial que reunir o arquivo fsico e digital mantido em acervos particulares
Ana Weiss

Olhar de perto os mapas esquemticos que Erico Verissimo desenhou para visualizar o enredo de Incidente em Antares e O Senhor Embaixador, leva a crer que se trata do trabalho de um escritor metdico, antecipando cada movimento dos personagens antes de comear a escrever seus romances. Mas no era bem assim. Esses mapas, assim como centenas de pginas de originais, esboos e primeiras edies de Verissimo, por pouco no se perderam ou foram parar na lata de lixo logo depois de serem paridos, dando lugar a outros novos, com outras ideias e possibilidades. Ele era bastante catico, no valorizava os originais ou os desenhos, que praticamente escondia, quando no jogava fora ou dava s pessoas mais prximas, conta o crtico Flavio Loureiro Chaves, amigo que guardou os originais sados da mquina de escrever de Verissimo, croquis, cartas e mais de 1,2 mil volumes sobre o autor, publicados a partir de sua morte, em 1975. Verissimo nem considerava as cinco primeiras redaes, diz o tambm escritor, responsvel pela organizao pstuma da autobiografia Solo de Clarineta.

Todo esse material preservado por Loureiro, incluindo as ideias iniciais datilografadas e manuscritas para o primeiro e ltimo livros do autor  Fantoches e Solo de Clarineta , poder ser olhado de perto por qualquer pessoa, a partir do final de setembro, com a inaugurao do Memorial Erico Verissimo, em Porto Alegre, onde ele viveu boa parte de sua vida. Nunca antes esses dois documentos foram mostrados na ntegra, garante Loureiro, que, antes do memorial, recebera outras duas propostas de depsito de seu acervo pessoal, uma delas de uma biblioteca americana. Esperei uma oportunidade em que tive certeza de que o legado de Erico ficaria  disposio do leitor brasileiro.

Espao multimdia projetado em um edifcio dos anos 1920, o centro cultural tambm vai disponibilizar o acervo do biblifilo Mario de Almeida Lima e ter um andar dedicado  pesquisa, com disponibilidade de consultas virtuais.

PAI ZELOSO - Erico Verissimo com os filhos, Clarissa e Luis Fernando. Em texto escrito para o Instituto Moreira Salles, a filha contou que s pde ler muitos dos livros do pai depois dos 18 anos

A exposio de originais com notas de prprio punho do escritor tem o mrito de mostrar por que caminhos percorriam seu pensamento durante o processo criativo. E mostra uma faceta bem-humorada do autor, conhecida s dosmais prximos.

Verissimo datilografou as primeiras letras em papel de embrulho de cebola e alho, nos intervalos da atividade de vendedor, aos 17 anos, quando teve de deixar os estudos para se tornar arrimo de famlia, em Cruz Alta (Rio Grande do Sul). Obstinado e trabalhador, s comeou de fato a ganhar dinheiro com sua literatura com o lanamento de Olhai os Lrios do Campo, em 1938  ento j casado e pai de Clarissa e Luis Fernando. A histria do casal de mdicos infelizes vendeu, no lanamento, 62 mil exemplares. Um feito para o perodo e ainda para hoje.

A sua intensa dedicao ao trabalho foi, em algumas biografias, associada  personalidade sisuda e crtica, sobretudo em relao ao que ele mesmo escrevia. J com a carreira reconhecida internacionalmente, Verissimo dizia que, dos 30 livros que escrevera, talvez trs ou quatro possussem alguma importncia. Ainda de acordo com sua avaliao, apenas um deles, O Continente (ltimo livro de O Tempo e O Vento), sobreviveria. Passados 80 anos de sua estreia, o autor continua sendo a maior referncia do romance histrico brasileiro, dentro
 e fora do Pas.


3. EM CARTAZ  CINEMA - O LTIMO PAPEL DE WALMOR CHAGAS
por Ivan Claudio

No so poucas as coincidncias entre a vida de Walmor Chagas e a de seu ltimo personagem, o colecionador de arte Samir. O ator, encontrado morto este ano em seu stio em So Paulo, estava quase cego, como o fazendeiro que interpreta em A Coleo Invisvel, filme de Bernard Attal baseado em conto do austraco Stefan Zweig. Assim como Samir, Chagas vivia bastante recluso ao receber o convite e s aceitou depois de muita insistncia da equipe e de seu caseiro Jos Arteiro, que leu o roteiro e intercedeu a favor do diretor. Para sorte da obra e do pblico. O protagonista da pelcula ambientada principalmente no interior baiano  Beto (Vladimir Brichta, no seu primeiro papel no cinema), jovem de Salvador que volta a ver o mundo alm do prprio umbigo depois da passagem pela fazenda destruda por uma praga.

+5 filmes com Walmor Chagas
SO PAULO, SOCIEDADE ANNIMA
 Filme de Lus Srgio Person, de 1965, mostra a ascenso da vida corporativa em So Paulo.

HISTRIAS DO OLHAR
 Isa de Albuquerque dirige a histria de mulheres em encontros que se passam dentro de uma livraria

BODAS DE PAPEL
 Dirigido por Andr Sturm, trata da relao entre um arquiteto e a neta do dono de um velho hotel que precisa ser reformado

VALSA PARA BRUNO STEIN
 Chagas faz o patriarca que d nome ao filme. Um personagem duro com valores ultrapassados. Direo de Paulo Nascimento

XICA DA SILVA
 Dirigido por Cac Diegues, o filme de 1976 foi baseado no livro homnimo de Joo Felcio dos Santos. Com Zez Motta


4. EM CARTAZ  EXPOSIO - A ARTE DO IMPROVISO
por Ivan Claudio
Frequentador de mostras atualssimas, como as ltimas Documenta de Kassel e Bienal de Arte de Veneza, William Kentridge  uma espcie de foco de resistncia  imaterialidade da arte contempornea. Como se pode constatar nos 38 desenhos, 27 filmes, 184 gravuras e dez esculturas expostos na Pinacoteca do Estado de So Paulo, o artista sul-africano recupera e valoriza os processos artesanais de trabalho, privilegiando o improviso e os objetos cotidianos.


5. EM CARTAZ  MSICA - OS ANIVERSRIOS DE MILTON NASCIMENTO
por Ivan Claudio
Gravado ao vivo no Rio de Janeiro, Uma Travessia  Milton Nascimento se apoia na efemride dupla: 50 anos de carreira e 70 de vida, completados no ano passado, para retomar todos os maiores sucessos do compositor. Ao lado de canes mais recentes, esto no lbum Maria, Maria, Corao de Estudante (com a participao de Wagner Tiso) e Para Lenon e McCartney (com L Borges). A Cano da Amrica  apresentada pelo compositor  em uma bem-humorada passagem da gravao  como a msica que passou a servir para todas as ocasies. Ainda assim, emociona.


6. EM CARTAZ  LIVRO - LITERATURA DESERDADA
por Ivan Claudio
Saul Bellow ganhou o Nobel de Literatura logo aps publicar O Legado de Humboldt, em 1976. O romance, que sai agora no Brasil com traduo de Rubens Figueiredo, mostra como a narrativa premiada permanece atual. O livro relata o percurso do vendedor Charlie Citrine, aspirante a escritor. De f, torna-se amigo e depois herdeiro do poeta Von Humboldt Fleisher. Seu mestre cai no esquecimento e passa a exibir seu ressentimento pelo pupilo, que na fico ganha o Pulitzer. O Pulitzer  para pintos [...] No passa de um prmio papagaiada para fazer propaganda nos jornais, escreve o Humboldt criado por Bellow.


7. EM CARTAZ  POESIA - INTIMIDADE EM UMA PGINA
por Ivan Claudio
A organizao de Dever, novo livro de poemas de Armando Freitas Filho, nos diz algo sobre o seu autor, que completa este ano 50 de carreira. Nesse novo volume, Freitas Filho rene a cepa do que produziu entre 2007 e 2013. Mas os textos  curtos, quase todos ocupando uma nica pgina  no esto datados e, no lugar de uma esperada ordem cronolgica, as poesias esto arranjadas em passagens temticas. A primeira, chamada Sute, diz respeito ao universo familiar, pessoal. S sei ser ntimo ou no sei ser, escreve em Ar de Famlia.


8. EM CARTAZ  AGENDA - BALLET STAGIUM/O SENHOR DAS CHAVES/CAMERATA FUKUDA
Conhea os destaques da semana
por Ivan Claudio

BALLET STAGIUM
(Teatro Geo, em So Paulo, dias 31/8 e 1/9)
 Coreografia mais recente da companhia homenageia a Semana Modernista. Direo de Marika Gidali e Dcio Otero

O SENHOR DAS CHAVES
 (Teatro Cacilda Becker, em So Paulo. De 31/8 a 13/10)
 Espetculo de Alexandre Roit une mitologia universal e tcnica circense. Com direo de Pedro Pires e dramaturgia de Rodrigo Matheus

CAMERATA FUKUDA
 (Sala So Paulo, dia 2/9)
 Sob a regncia de Celso Antunes, a orquestra apresenta composies de Schubert, Stravinski, Bach e Dvorak


9. ARTES VISUAIS - CONCERTOS PARA CORPO E FOTOGRAFIA
Coleo de fotografias histricas que documentam happenings e performances  apresentada em galeria paulistana
por Paula Alzugaray

O Corpo Expandido/ Galeria Jaqueline Martins, SP/ at 30/9

Yves Klein foi um pintor francs ativo durante a dcada de 1950 e, como outros de sua gerao, sintetizou sua expresso em trabalhos monocromticos. Klein buscou a reduo e a simplificao da obra de arte ao ponto de desmaterializ-la. Em 1960, no af de sua busca pelo vazio, comeou a pintar utilizando corpos femininos como pincis.

O objeto de sua pintura passou a ser o rastro de tinta de corpos ausentes. As pinturas foram intituladas Antropometrias e a performance para realiz-las tornou-se uma obra em si. Embora o que estivesse na mira de Klein fosse a desmaterializao do objeto artstico no ato efmero do gesto corporal, paradoxalmente, as fotografias que registram seus happenings ganharam status de obras de arte. Tornaram-se um gnero em si, praticado intensamente, cultuado por colecionadores e valorizado no mercado. Hoje, a exibio de uma importante coleo de 110 fotos de performances realizadas entre os anos 1950 e 1980, na galeria Jaqueline Martins, em So Paulo, d a exata dimenso e a amplitude que essa expresso teve e tem em todo o mundo.

CLSSICOS - Charlotte Moorman (acima) em performance sonora; e Guglielmo Achille Cavellini em ao potica

As Antropometrias (1960-1962) so um marco da fotografia de performance. As imagens de Klein supervisionando a atuao de suas modelos lambuzadas de tinta azul ao som da orquestra executando A Sinfonia Monotnica, de uma nota s, esto entre as mais antigas da coleo apresentada na exposio O Corpo Expandido. Anterior a elas, s a imagem de Salvador Dal e Georges Mathieu, de 1958, em procisso com uma baguete de 15 metros. Depois delas, h uma sucesso imperdvel de clssicos do gnero, como Charlotte Moorman tocando um violoncelo criado por Nam June Paik, com trs televisores empilhados. A performance sonora Concert for TV Cello (1974)  um momento histrico da experimentao de novas mdias pela arte contempornea. Conectados a uma cmera filmadora, os trs televisores transmitiam a imagem da artista em ao, tocando seu instrumento composto por um circuito fechado de vdeo.

As fotografias tm enormes variaes de contedo. Algumas documentam performances individuais de risco, como as de Hermann Nitsch ou de Ulay, ex-companheiro de Marina Abramovic. Outras valorizam aes coletivas em espaos naturais, como os trabalhos de Franz Erhard Walther, que promove interconexes entre vrios corpos  como Lygia Clark fazia no Brasil. Em comum, elas promovem frteis entrecruzamentos de linguagens: fotografia, msica, poesia, pintura, escultura, etc. As fotografias de O Corpo Expandido pertencem  coleo dos italianos Giuseppe Casetti e Giorgio Maffei e foram apresentadas no incio do ano na filial romana do Museu do Louvre. Foram mais de 12 meses negociando para conseguir mostrar na galeria. Eu quase desisti. Mas, enfim, deu certo e estou feliz e honrada em mostrar esse material, diz a galerista Jaqueline Martins.


10. ARTES VISUAIS - BATE PAPO - ABASEH MIRVALI E A PAISAGEM MONUMENTAL DO RIO
por Paula Alzugaray

Desde sua primeira edio, em 2011, a feira de arte contempornea ArtRio explora a grandiosidade da paisagem na qual est inserida: a estonteante vista da Baa de Guanabara, vista do Per Mau. Este ano no ser diferente. A monumentalidade do Rio de Janeiro serviu de inspirao para o programa LUPA, exposio de esculturas em grande escala, com curadoria da iraniana Abaseh Mirvali (foto). O projeto traz esculturas de James Turrell, Artur Lescher, Hlio Oiticica, Daniel Steegmann, Ana Roldn e Amilcar de Castro, entre outros, e ficar em cartaz no Armazm 4 da ArtRio entre 5 e 8 de setembro. Em sua terceira edio, o evento internacional rene galerias de 13 pases.

Quais so os principais conceitos envolvidos na curadoria do programa LUPA na ArtRio? 
 Abaseh Mirvali  O conceito curatorial vislumbrado para o LUPA tem mltiplas facetas. Por um lado,  inspirado no local de tirar o flego onde ser realizado, no Per Mau. Alm disso, essa seo  profundamente inspirada por todas as imagens visuais e expectativas que perpassam nossa mente quando pensamos no Rio de Janeiro com sua energia, paisagem, sons e pessoas maravilhosas. Minha inteno com os trabalhos apresentados  tentar reconhecer, analisar, reinventar e explorar as implicaes sociolgicas e culturais desse rico cenrio. H tambm um foco em jogar com as estruturas. A montagem de LUPA presta-se a um rico dilogo com as linhas, os espaos e as formas da arquitetura brasileira, e mais especificamente com as interessantes construes ps-modernistas, que povoam o Brasil e so, ao mesmo tempo, abstratas e esculturais.

Por que trabalhar com escala monumental? 
 Quando Brenda Valansi e Joo Paulo Siqueira me convidaram para esse projeto, fiquei realmente empolgada com seu foco em escultura. Passei a apreciar a escultura de modo mais amplo e estou aberta s suas mais diversas interpretaes e manifestaes. Pensar em como a escultura pode ocupar um espao, brincar com o som e a luz e dialogar com a arquitetura. Com um projeto desta natureza  possvel ter uma abordagem mais holstica e jogar com o contexto e o espao, permitindo que os projetos selecionados apresentem diferentes leituras e convidando o espectador a criar com eles uma nova relao. Monumental, para mim,  a medida do impacto, e no do tamanho.

